O comércio na Internet chegou ao ponto de se apoiar somente em instituições financeiras como terceiros de confiança para processar pagamentos eletrônicos. Enquanto o sistema funciona bem o suficiente para a maioria das transações, ele ainda sofre da inerente fraqueza do sistema baseado na confiança. Transações completamente não reversíveis não são realmente possíveis, já que as instituições financeiras não podem evitar disputas de mediação. O custo da mediação aumenta o custo da transação, limitando o valor prático mínimo de uma transação e eliminando a possibilidade de pequenas transações casuais. (…) Pela possibilidade de reversão, a necessidade por confiança se dissemina. Comerciantes precisam ficar atentos aos seus clientes, perturbando em busca de mais informações que eles podem nem vir a usar. (…) não existe nenhum mecanismo que faça pagamentos através de um canal de comunicações sem um terceiro de confiança”. (Satoshi Nakamoto, 2008)[1].

Caio Margutti Alves

O trecho acima retirado do artigo “Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System”, publicado em 2008 por Satoshi Nakamoto foi o pontapé inicial para a criação da primeira moeda eletrônica descentralizada: o Bitcoin! O artigo descreve a parte gerencial de um sistema financeiro apoiado nas ideias de privacidade, descentralização, desenvolvimento em comunidade, e distribuição das atividades necessárias para manter o sistema funcional entre os participantes dele. Muitos pesquisadores consideram uma das maiores revoluções desde a criação da internet, se não maior que ela[2]!

SATOSHI NAKAMOTO

A ideia por trás da criação da moeda é tão intrigante como a própria historia da identidade de seu criador. Satoshi[3] não só desenvolveu o artigo citado acima, como também foi quem planejou e desenvolveu o software original Bitcoin, atualmente conhecido como Bitcoin-Qt. Não se sabe ao certo se Satoshi Nakamoto é um pseudônimo ou o nome real de uma pessoa, ou até de um grupo de pessoas! Não há registros sobre sua identidade anterior a criação do Bitcoin. Em seu profile na P2P Foundation[4], Nakamoto informava ser um indivíduo masculino de 37 anos vivendo no Japão, o que foi encarado com muito ceticismo devido ao seu uso do inglês em mensagens, na redação do artigo e na documentação do software Bitcoin. Porém até seu uso da linguagem foi nebuloso, alternando entre o inglês britânico e o inglês americano.

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Profile de Satoshi na P2P Foundation. Fonte: Própria

Dentre outras especulações quanto a identidade do autor, surgiram também aquelas baseadas na forma como o software Bitcoin foi desenvolvido. Programadores encontraram tanto práticas elegantes quanto práticas não tão elegantes de programação no código fonte, o que os intuiu a pensar em Nakamoto como uma pessoa sem muito contato com as últimas tendências de desenvolvimento adotadas. Porém, o elevado conhecimento específico que ele demonstrou ter no artigo sobre Bitcoin, direcionou algumas pessoas a pensar como alguém pertencente a academia.

As investigações sobre a identidade real de Satoshi levaram a diversas pessoas. Dentre tais investigações, as conduzidas pelo The New Yorker e pela Fast Company’s tiveram grande repercussão, devido às similaridades, encontradas por eles, entre os investigados e Satoshi.

Empresas propuseram utilizar a velha teoria de que qualquer pessoa está a seis graus de distância de qualquer outra, iniciando um movimento na internet chamado “Find Satoshi”[5], para colocar a teoria em prática. Mrecem destaque também os boatos apoiados na ideia de Nakamoto ser um grupo de pessoas, em especial para o nome ser uma sigla para “Samsung, Toshiba, Nakamichi, Motorola”, indicando que tais empresas estariam colaborando juntas em segredo para o desenvolvimento da moeda Bitcoin.

BITCOIN

“Vires in Numeris”.

A frase acima é o mote que define de maneira mais sucinta a ideia por trás do Bitcoin: força nos números. Devido às suas diversas interpretações concomitantemente positivas e pertinentes à filosofia por trás da moeda, a frase teve ampla adesão e se tornou amplamente difundida, sendo usada nas mais diversas plataformas relacionadas à ideia. Veja por exemplo este depoimento de Rick Falkvinge[6] – criador do primeiro Partido Pirata e representante eleito do Parlamento Europeu – sobre os três pontos mais importantes da filosofia por trás do Bitcoin:

“Existem três conceitos fundamentalmente novos que, vistos de forma conjunta, podem se tornar revolucionários. O primeiro é o valor da utilidade. Bitcoin permite que você transfira o valor de um copo de café para o outro lado do planeta instantaneamente, com poucas taxas. Apenas nesse ponto, já está pelo menos 40 anos à frente de todos os bancos comerciais. O segundo é o valor comercial. O pagamento em Bitcoin permite que o setor de varejo se desvie dos cartões de crédito e das taxas bancárias, podendo com isso até dobrar a sua margem de lucro. Essa economia acabará sendo repassada ao consumidor final. O terceiro é o valor político. Não há banco central ou alguém com autoridade para mandar na sua conta bancária e planos futuros. O dinheiro é sua propriedade e ninguém pode impedir que você mande para quem quer que seja”.

MODELO DE NEGÓCIOS[7]

O modelo é composto de políticas de segurança e incentivo que se complementam para o bom funcionamento da rede. A começar pelas políticas de segurança: a moeda funciona como uma corrente digital de assinaturas. Cada dono realiza uma transferência assinando digitalmente um hash (um tipo de estrutura de dados computacional) da transação anterior e a chave pública (estrutura que identifica o usuário na rede) do próximo dono. Ao término, essas informações são adicionadas ao final da moeda. O receptor pode verificar as assinaturas para identificar a corrente de posse daquela moeda.

Esse esquema todo compõe uma Corrente de transações, onde o cálculo do hash da próxima transação é derivado a partir do hash da anterior. Alterar uma transação mais antiga envolve alterar todas as anteriores e satisfazer um hash valido para as seguintes, o que cresce bruscamente em complexidade computacional. Isso torna as ações para fraudar a posse da moeda muito difícil de acontecer.

As transações são agrupadas em blocos, juntando tanto as válidas (início do bloco) quanto as ainda não válidas (final do bloco). Como o processamento na rede Bitcoin é feito de maneira descentralizada, se dois nós disseminam diferentes versões de um mesmo bloco simultaneamente, os outros nós poderão receber qualquer uma das duas primeiro. Nesse caso, eles trabalham no primeiro bloco recebido, mas salvam a outra opção criando uma ramificação e gerando um empate. O empate é quebrado quando uma das provas de trabalho é achada (resolução do cálculo do hash por algum dos nós da rede) e um dos ramos cresce. Os nós que estavam trabalhando em outro ramo trocam para o maior.

Por último, no caso de gastos duplos (tentar gastar as mesmas moedas para dois outros receptores ao mesmo tempo), o modelo Bitcoin adotou a política de todas as transações serem anunciadas publicamente e medir o consenso gerado pelos participantes do poder computacional da rede perante a ordem das transações. Num modelo centralizado, por exemplo, caberia a uma única organização ou terceiro de confiança decidir a transação que se concretizou primeiro, o que torna o sistema muito mais suscetível a falhas, ataques ou atitudes de má fé, segundo o(s) autor(es) do artigo.

Ao emprestar poder computacional para desempenhar as funções descritas anteriormente, o usuário poderá ser recompensado por realizar o processo conhecido como mineração. A mineração é uma atividade repleta de políticas de incentivos que objetivam influenciar a rede a manter sua maioria honesta, para seu pleno funcionamento. Por exemplo, há uma convenção de que a primeira transação em um bloco é considerada especial e inicia uma nova moeda para seu criador. Dessa forma se providencia não somente a circulação das moedas, mas também um incentivo para os Nós computacionais darem suporte à rede ao invés de tentar sabotá-la, pois o gasto computacional para tal atividade seria menor do que o necessário para ter um lucro ilícito.

Outro caso de incentivo pode ser também através de honorários de transação. Serve para pedir atenção dos nós, através de uma recompensa, quando você quer que sua transação seja processada mais rapidamente.

VALOR DE COTAÇÃO E MERCADO

Altos e baixos definem o histórico da moeda. Tendo sua cotação mais baixa no dia 19 de novembro de 2011, 2 dólares, e sua mais alta no dia 30 de novembro de 2013, 1095,20 dólares, a moeda já acumulou 5787,10% de variação (note que este valor é o acumulado dentre todas as variações que a moeda já sofreu. Não é a variação do menor valor para o maior) e tem a média de cotação calculada em 134,82 dólares[8].

Por se tratar de um paradigma totalmente novo, a moeda se mostra ainda muito sensível a repercussões. Por exemplo, a derrocada (pelo FBI) do mercado online conhecido como Silk Road, famoso por seu difundido uso para venda de drogas de forma anônima, resultou na apreensão de 1,5% de todos os bitcoins em circulação. Isso fez com que a moeda tivesse uma queda imediata de 20% no seu valor, mas gerou uma limpeza de imagem e, consequentemente, confiança de mercado que a fez alcançar valores de 1000 dólares a unidade algumas semanas depois[9]!

Outro exemplo recente gerou turbulência no preço do Bitcoin. A Mt. Gox, a maior empresa de carteiras virtuais, decretou falência devido a um roubo milionário sofrido[10]. O incidente levantou questões quanto à segurança do uso da moeda e um intenso desequilíbrio econômico foi gerado no mercado da moeda. A cotação despencou, porém vem se recuperando aos poucos (ao final da redação desta matéria o preço de uma moeda era de 572.96 dólares, cerca de R$1494.9)[11].

Foram 850.000 bitcoins roubados (750.000 de clientes e 100.000 próprios da empresa), que somam por volta de 450 milhões de dólares dada a atual cotação estável da moeda – 550 a 570 dólares.

Já a sua relação com o mercado está começando a sair da timidez. A moeda que teve em seus primórdios o uso para compra de itens escusos da deep web, agora começa a ter seus primeiros passos para estabelecimento em diversos países. O mercado virtual e muitos de seus serviços abriram as portas para a moeda: como a abertura de mercados de compras onlines, BitcoinShop.us[12]; compras de serviços do WordPress; aquisições em sites como o Reddit e Mega; compras de jogos no Humble Bundle e a chegada de caixas eletrônicos de Bitcoins[13]. A moeda ganhou inclusive modelos físicos e funcionais que podem ser comprados em sites como da Casascius[14].

Moeda Física de Bitcoin. Fonte: Casascius

Moeda Física de Bitcoin. Fonte: Casascius

Porém, aqui no Brasil, as coisas caminham ainda vagarosamente. Até o mês de outubro do ano de 2013, havia apenas cerca de seis estabelecimentos que aceitavam a moeda como forma de pagamento[15]: o bar e bicicletaria Las Magrelas; a loja de componentes Webtrônico; a pousada Kyrios, que fica na praia de Maresias, em São Sebastião, no litoral norte de São Paulo; a loja virtual de bebidas Terras Brasilis; a agência de aluguel de apartamentos Copa Apartments, no Rio de Janeiro; e um centro de práticas budistas, o Pedra Negra das Bromélias, na região serrana do Espírito Santo.

MAQUINÁRIO

Se você já está habituado com o processo de desenvolvimento do hardware da área de computação, deve saber que o principal impulsionador é o software e seu potencial de atrair mercado. E com o Bitcoin não foi diferente.

Tudo começou de maneira simples em 2009, onde a mineração podia ser feita pelo trabalho de um processador em qualquer computador antigo. Qualquer computador tinha uma possibilidade real, através de poder computacional, de criar moedas resolvendo o hash dos blocos de transações. O modelo de negócios do Bitcoin autorregula a dificuldade para dar apenas um bloco de moedas a cada dez minutos, o que transforma a disputa não na quantidade de poder que você tem, mas sim na proporção que você tem do todo.

O que começou como um passatempo para qualquer computador estimulou a evolução de uma verdadeira usina de plataformas de mineração de Bitcoin. Por exemplo o caso da AsicMiner, uma empresa que reservou um andar inteiro para montar um “datacenter de mineradoras” em um prédio da cidade de Kwai Chung, Hong Kong[16]. As máquinas de mineração já são de porte tão elevado e exploradas de tal maneira, que resultam num impacto ambiental imenso. O uso de máquinas voltadas para a mineração de Bitcoin já é estimado por ser responsável pelo consumo de 150.000 dólares de energia elétrica por dia[17]!

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Hacks repletos de máquinas mineradoras da AsicMiner (Fonte da imagem: Reprodução/Bitell)

O desenvolvimento do maquinário para a mineração se deu de maneira rápida e competitiva. Nos seus primórdios, era comum a mineração usando um processador de finalidade geral. Um processador médio pode executar um pouco mais de quatro instruções por ciclo de clock e poderia processar alguns milhões de hashes por segundo. Só que com o passar do tempo e a popularização da atividade de mineração, os mineiros descobriram que podiam usar a GPU (Graphical Processing Unit) no lugar da CPU (Central Processing Unit), que pode rodar 3.200 instruções por ciclo. Basta pensar na CPU como um pequeno grupo de pessoas muito capacitadas, que podem fazer rapidamente qualquer tarefa que você dá a elas, e na GPU como grande grupo de pessoas pouco capacitadas, que não são individualmente muito rápidas, mas podem ser treinadas para fazer tarefas repetitivas e podem ser mais produtivas coletivamente graças ao número de pessoas.

Plataforma de mineração de multi-GPU. Fonte: Gizmodo

Plataforma de mineração de multi-GPU. Fonte: Gizmodo

Isso foi suficiente para multiplicar por 800 a força que os mineiros mais atualizados tinham em suas mãos. Porém, após descoberta da nova estratégia, ter uma máquina usando GPU virou uma limitação mínima para concorrer na mineração. Então, como vencer o jogo quando todo mundo está competindo com a mesma potência?

Através do uso de múltiplas GPUs, os mineiros tentavam cada vez mais aumentar seus lucros. Toda via, isso trouxe outras implicações: como encontrar espaço, manter os sistemas resfriados e principalmente o custo da eletricidade. Este último fator foi responsável pela migração para um novo tipo de tecnologia: os Field-Programmable Gate Arrays (FPGA).

Este tipo de tecnologia, aplicada até então em supercomputadores, data centers, máquinas de ressonância magnéticas, scanners de tomografia e coisas do tipo, ganhou um novo tipo de atuação. São chips que têm a capacidade de serem redesenháveis de imediato, graças às suas muitas conexões, que fazem com que eles sejam bons em qualquer coisa, desde que com as orientações apropriadas. Dessa forma, bastava treiná-los na arte de minerar bitcoins. As contribuições principais foram a redução da quantidade de eletricidade necessária para conseguir um desempenho competitivo, e um dos últimos passos no desenvolvimento de tecnologias: o desenvolvimento de hardware verdadeiramente especializado.

Dado esse novo rumo, pode-se dizer que um dos últimos avanços no nicho da mineração foi o circuito integrado para aplicação específica (ou ASIC, Application-Specific Integrated Circuit). Ele surgiu em fevereiro de 2012, trazendo um novo paradigma de capacidade com ele. Ao contrário dos FPGA, ASICs não são maleáveis, mas sim inalteráveis, de tão intrínsecos ao hardware que são. Eles oferecem cem vezes mais poder de processamento que os sistemas FPGA e usam ainda menos energia.

Tome como exemplo o aparelho conhecido como Avalon ASIC. Ele foi desenhado e construído apenas com uma coisa em mente: minerar Bitcoin. Formado por um batalhão de chips especializados, que prometem processar 65
gigahashes por segundo, chegou a custar US$ 6.800 a unidade. Caro? O primeiro Avalon ASIC se pagou em apenas nove dias[18]!

Se você se interessou por este assunto, não deixe de acessar os artigos e websites indicados nesta matéria. Você verá que o cenário da moeda é dinâmico e a cada dia surge mais informação e oportunidades de negócios na área. Vá em frente que vale a pena!


Referências

[1] – https://bitcoin.org/bitcoin.pdf

[2] – http://falkvinge.net/2013/04/03/why-bitcoin-is-poised-to-change-society-much-more-than-the-internet-did/

[3] – https://en.bitcoin.it/wiki/Satoshi_Nakamoto

[4] – http://p2pfoundation.ning.com/profile/SatoshiNakamoto

[5] – http://en.wikipedia.org/wiki/Six_degrees_of_separation#Find_Satoshi

[6] – http://gizmodo.uol.com.br/tudo-sobre-o-bitcoin/

[7] – Traduzido e adaptado do artigo original Bitcoin: https://bitcoin.org/bitcoin.pdf

[8] – Valores retirados do site: http://br.investing.com/currencies/btc-usd

[9] – http://www.forbes.com/sites/andygreenberg/2014/02/28/bitcoin-shrugs-off-mt-goxs-death-rattle/

[10] – http://www.forbes.com/sites/kashmirhill/2014/02/28/mt-gox-ceo-says-all-the-bitcoin-is-gone-in-bankruptcy-filing/

[11] – Valores retirados do site: http://br.investing.com/currencies/btc-usd e https://www.mercadobitcoin.com.br/

[12] – https://www.bitcoinshop.us/

[13] – Veja mais em: http://info.abril.com.br/noticias/internet/2013/09/eua-terao-caixa-eletronico-de-bitcoin.shtml

[14] – https://www.casascius.com/

[15] – http://tecnoblog.net/140321/bitcoin-moda-futuro-economico-ou-mau-negocio/

[16] – http://www.tecmundo.com.br/bitcoin/48777-deuses-da-mineracao-conheca-maquinas-incriveis-para-gerar-bitcoins.htm

[17] – http://gizmodo.com/5994626/bitcoin-mining-has-an-absurd-environmental-impact e http://www.bloomberg.com/news/2013-04-12/virtual-bitcoin-mining-is-a-real-world-environmental-disaster.html

[18] – http://gizmodo.uol.com.br/perfuradoras-digitais-as-maquinas-monstruosas-que-mineram-bitcoins/